30 abril, 2006
















Fácil escrever na inesperada leveza.
As mãos e as sombras numa folhagem única.
Portas acesas. Anéis ou astros.
As bocas seguem as alamedas sinuosas.
Multiplicam-se as luzes do teu vestido de ervas.

Uma cabeleira no flanco das colinas,
carícias deslumbradas, sorrisos perfumados,
linhas de um corpo, linhas de um rio frágil e
minúsculo,
corolas de veludo e barro, corolas de água.
Um gesto dissipa as letras, levanta o silêncio ágil.

Reflexos, raízes na água transparente,
monótonos caprichos de semelhanças leves.
Ao acaso libertam-se sombras mais profundas.
O olhar agora está ligado à terra.
Levanta-te entre as pedras com as pedras.

António Ramos Rosa

29 abril, 2006

Nuvens correndo num rio


















Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!

Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.

Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?

Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?

Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.

Natália Correia

28 abril, 2006

ofertado





















“Virás comigo”, disse, sem que ninguém soubesse
onde e como pulsava o meu coração doloroso,
e para mim não havia cravo nem barcarola,
nada a não ser uma ferida aberta pelo amor.

Repeti: vem comigo, como se estivesse a morrer,
E ninguém viu na minha boca a lua que sangrava,
Ninguém viu aquele sangue que crescia em silêncio.
Oh amor, esqueçamos a estrela com espinhos!

Por isso quando ouvi a tua voz repetir
“Virás comigo”, foi como se soltasses
dor, amor, a fúria do vinho encarcerado

que da sua adega submersa subisse
e outra vez na boca senti um sabor de chama,
de sangue e cravos, de pedra e queimadura.

P. Neruda

(Obrigada, Zeus)

27 abril, 2006

aqui perto...























Poema hoje trazido de um novo sítio,
designado Ponte Encantada,
onde Lady Traveller e Mr. Misan Thrope,
(anglicismos de Quem Viaja por superficíes espelhadas e labirinticas e de Quem tenta não ter da vida uma visão açucarada, confinado ao espaço restrito do monitor)
dialogalmente se propõem abolir as margens.


How often we must bear the challenges of life;
The endless roller coaster between happiness and sorrow;
The constant ups and downs of daily strife.
And always the question remains .... why?

Life is not an easy road for most;
It twists and turns with many forks in the road,
Although always, and inevitably, we are given a choice ...

Do we turn to the right ... or the left?
Do we take the high road ... or the low road?
Do we take the easy path ... or the difficult one?

Decisions are not easy for those struggling for direction ...
And sometimes the many choices and signs become overwhelming.

While standing at a crossroads in life,
The urge is to take the most comfortable path;
The road with least resistance ...
The shortest or most traveled route.

And yet, if we've been down that comfortable road before;
Have gleaned its lessons in life, and learned from our experiences;

Do we yet again follow the known?
Or does our destiny lie in another direction?

The fear of the road less traveled is tangible and all too real;
It manifests itself in many ways,
And tends to cloud the issues that might otherwise be clear.

It is in these times of confusion,
That we must seek peace and solitude;

Time to contemplate on our life,
Our experiences and our choices past;
Time to look back, and reflect on what we have learned
Without fear or confusion.

For only each of us knows our own personal thoughts;
Our unique past and personal history;
The experiences that brought us to the crossroads we now face.

We can always learn a small degree from others experiences,
And yet ... no one person can walk in our shoes,
Others know not, the trials and tribulations faced in private ...

For each is individual ... unique ... and personal.

And that is why ... while standing at a crossroads,
Only "we" can formulate the decision for ourselves;
The true direction that lies within;
The choices we must deliberate on with clarity and wisdom.

For it is only through personal reflection,
That we can now choose our destiny;
... Our next adventure;
... And the future we will embrace.

Kit McCallum

25 abril, 2006

O amor


















Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.

A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.

A inudar-te de facas,
de saliva esperma lume.

Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.

A marcar sobre os teus flancos
itinerários de espuma.

Assim é o amor:
mortal e navegável.

Eugénio de Andrade

24 abril, 2006

Frente a frente





















Nada podeis contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco.

Eugénio de Andrade

23 abril, 2006

Soneto






















Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.

Ary dos Santos

22 abril, 2006

Mi Vida Entera














Aqui otra vez, los labios memorables, unico y
semejante a vosotros.
Soy esa torpe intensidad que es un alma.
He persistido en la aproximacion de la dicha y
en la privanza del pesar.
He atravesado el mar.
He conocido muchas tierras; he visto una mujer
y dos o tres hombres.
He querido a una nina altiva y blanca y de una
hispanica quietud.
He visto un arrabal infinito donde se cumple una
insaciada inmortalidad de ponientes.
He paladeado numerosas palabras.
Creo profundamente que eso es todo y que ni veré
ni ejecutaré cosas nuevas.
Creo que mis jornadas y mis noches se igualan en
pobreza y en riqueza a las de Dios y a las
de todos los hombres.

J.L.Borges

21 abril, 2006

Coleccionador de quimeras





















Quando as minhas angústias
começam a morder-me
ponho-lhes a trela
saio à rua a passea-las
e deixo-as ladrar
ao tédio transeunte.
Depois ponho-lhes asas
e deixo-as voar
como pássaros
em busca de primaveras
imprevisíveis.

António Tomé

Antigamente era
















Antigamente era o eu-proscrito
Antigamente era a pele escura-noite do mundo
Antigamente era o canto rindo lamentos
Antigamente era o espírito simples e bom

Outrora tudo era tristeza
Antigamente era tudo sonho de criança

A pele o espírito o canto o choro
eram como a papaia refrescante
para aquele viajante
cujo nome vem nos livros para meninos

Mas dei um passo
ergui os olhos e soltei um grito
que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo
Harlem
Pekim
Barcelona
Paris
Nas florestas escondidas do Novo Mundo
E a pele
o espírito
o canto
o choro
brilham como gumes prateados
Crescem
belos e irresistíveis
como o mais belo sol do mais belo dia da Vida.

Agostinho Neto

13 abril, 2006

















Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?


Drumond de Andrade

Eu diria dos apátridas que somos








Eu diria dos apátridas que somos
daquela pátria que nos sobra.
Diria daqueles que por amá-la
proscritos ficaram
proscritos morreram.
Diria do exorcismo de um povo
na beira-mar da aventura,
do medo que em nós germina,
da labareda do sonho,
do entardecer da agonia.
Diria da mordaça,
dos estropiados,
das flores precocemente emurchecidas
Diria também dos vagabundos
que nos calcorrearam
por dentro.
Diria ainda da História e da guerra
ali ao lado.
Náufragos irremediáveis dos mares da China
a que não fomos

Eduardo Pitta, Poesia Escolhida

09 abril, 2006

















Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

Sophia M. B. Andresen

07 abril, 2006

Sou um evadido




















Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Fernando Pessoa

06 abril, 2006

Poema 15

















Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran vola
doy parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
Déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.

Pablo Neruda

05 abril, 2006

pássaros





















sim, havia em mim
um bando de pássaros ávidos por voar
ficaram entretanto aprisionados
nunca conseguiram romper meu coração
e se libertarem
hoje eu sou uma gaiola de angústias sem asas.

Marilda Soares

04 abril, 2006

Il y a des moments où les femmes sont fleurs









Il y a des moments où les femmes sont fleurs ;
On n'a pas de respect pour ces fraîches corolles...
Je suis un papillon qui fuit des choses folles,
Et c'est dans un baiser suprême que je meurs.

Mais il y a parfois de mauvaises rumeurs ;
Je t'ai baisé le bec, oiseau bleu qui t'envoles,
J'ai bouché mon oreille aux funèbres paroles ;
Mais, Muse, j'ai fléchi sous tes regards charmeurs.

Je paie avec mon sang véritable, je paie
Et ne recevrai pas, je le sais, de monnaie,
Et l'on me laissera mourir au pied du mur.

Ayant traversé tout, inondation, flamme,
Je ne me plaindrai pas, délicieuse femme,
Ni du passé, ni du présent, ni du futur !

Charles Cros

20 março, 2006

se um dia

se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só te sonhar me morro de aflição

Al Berto

19 março, 2006

Princípios

















Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.

Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.

Nuno Júdice

eu sempre...

Eu sempre a Platão assisto.
Pessoalmente, porém, e creia que não
Tenho qualquer insuficiência nisto,
Sou um romano da decadência total,
Aquela do século IV depois de Cristo,
Com os bárbaros à porta e Júpiter no quintal.

Mário Cesariny

16 março, 2006

sete luas














Há noites que são feitas dos meus braços
e um silêncio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas

Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa.

Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longínqua onda de seu canto.

Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo.

Natália Correia

14 março, 2006

Aqui

















Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua.
Aqui livre sou eu – eco da lua

E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.
Não por aquilo que só atravessei,

Não p’lo meu rumor que só perdi,
Não p’los incertos actos que vivi,
Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

Sophia de Mello Breyner Andressen

13 março, 2006


















Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andressen

12 março, 2006

negrume e silêncio
















Deita-te aqui comigo de olhos fechados
e de palavras ancoradas
quero que percebas que no mais fundo
e secreto de mim há negrume e silêncio
e como daí - do negrume e do silêncio -
podem nascer as cores e renovar-se a alma
basta que
te deites aqui comigo
resumindo a noite
como quando se dorme.

Cláudia Caetano

10 março, 2006

Poema XVIII
















Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.

Eugénio de Andrade

09 março, 2006


















Ocupamos a paisagem
que, desocupada, se ocupa
de nós.
Tempo de ocupação, este.

Somos o estrangeiro
que o silêncio de paredes
brancas e esquecidas
perturbou.

Extasiado ao menor rumor
de um estio
duro e claro
— todo lâminas.

Perplexo da memória
destes dias
sufocados em tédio
e cal.

Da palavra para a pedra
arrastando-se aquáticos
— as mais sazonadas
as menos polidas.

Crestada que foi,
na raiz do tempo, toda
a subliminar tentativa
de retorno.

Eduardo Pitta

08 março, 2006

mensageira




















vem
quebra o silêncio do espaço
que me envolve em ondas de tédio
onde meus sonhos rasgados se contorcem

vem
habitada flor perfumada
cor seiva pétala fruto
pousar suavemente
neste espaço desnudado

vem
fonte de amor
dar riso ao sol
criar rios de luar
onde me aqueço e banho
vem assim simples
sem véus de cristal
regar meu corpo vagabundo

António Sem

07 março, 2006

Para além dos signos

















Escrever agora é dispersar os reflexos,
abrir as portas de pedra e repousar no ar.
Ajoelhado junto de um barco ou de uma jarra,
um deus respira e é um puro vazio.
Para além dos signos e no início deles
um sorriso, um fulgor das coisas confiantes.
E nos muros e nos dedos, uma areia
que das nuvens descesse e na distância
a forma de uma braço amante, o sonho do outro.

António Ramos Rosa

06 março, 2006

A respiração do mar
















Errantes as palavras, as janelas,
respiração à flor do mar no côncavo da arca,
ombro imenso que não encerra, todo o espaço
como um só corpo onde o vento começa

António Ramos Rosa

05 março, 2006

O amor que sinto















O amor que sinto
é um labirinto.

Nele me perdi
com o coração
cheio de ter fome
do mundo e de ti
(sabes o teu nome),
sombra necessária
de um Sol que não vejo,
onde cabe o pária,
a Revolução
e a Reforma Agrária
sonho do Alentejo.
Só assim me pinto
neste Amor que sinto.

Amor que me fere,
chame-se mulher,
onda de veludo,
pátria mal-amada,
chame-se "amar nada"
chame-se "amar tudo".

E porque não minto
sou um labirinto.

José Gomes Ferreira

04 março, 2006

Não posso adiar















Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite
e arda sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.

António Ramos Rosa

03 março, 2006

Canção Da Névoa





















Tristezas leva-as o vento;
Vão no vento; andam no ar...
Anda a espuma à tona de água
E à flor da noite o luar...

Vindes dum peito que sofre?
De uma folha a estiolar?
Donde vindes, donde vindes,
Tristezas que andais no ar?

Eflúvios, emanações,
Saídas da terra e do mar,
Sois nevoeiros de lágrimas
Que o vento espalha, no ar...

Suspiros brandos e leves
De avezinhas a expirar;
Ermas sombras de canções
Que ficaram por cantar!

Brancas tristezas subindo
Das fontes, que vão secar!
E das sombras que, à noitinha,
Ouve a gente murmurar.

Saudades, melancolias,
Que o Poeta vai aspirar...
Melancolias e mágoas,
Que são almas a voar.

E o Poeta solitário
Fica a cismar, a cismar...
Todo embebido em tristezas,
Levadas na onda do ar...

E o Poeta se transfigura,
É a voz do mundo a falar!
E aquela voz também vai
No vento que anda no ar...

Teixeira de Pascoaes

02 março, 2006

As minhas asas





















Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.

- Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra,
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
- Veio a ambição, co' as grandezas,
Vinham para mas cortar,
Davam-me poder e glória;
Por nenhum preço as quis dar.

Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.

Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
- Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não erguiam ao céu.
Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!

- Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei aos céus.

Almeida Garret

01 março, 2006

etapas





















Não te detenhas nos corredores sombrios,
são apenas etapas que importa ultrapassar.
De qualquer modo, não passam de episódios
e têm forçosamente um fim.

Os precipícios só existem
na cabeça de quem os inventa.

Nunca cedas ao medo das viagens longas,
de que a vida também se faz.

Na primeira carruagem dos comboios nocturnos
viaja sempre a madrugada.

Quando o sol te acordar, verás que o pesadelo
não passou disso mesmo, um pesadelo.

Torquato da Luz

28 fevereiro, 2006

Entre nós e as palavras

















Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mário Cesariny de Vasconcelos

27 fevereiro, 2006

Caminho sem pés e sem sonhos

















Caminho sem pés e sem sonhos
só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade
se conjuguem.

avanço sem jugo e ando longe
de caminhar sobre as águas do céu.

Daniel Faria

26 fevereiro, 2006

Bastava-nos amar e não bastava















Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.

Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.

Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar

a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.

Joaquim Pessoa

25 fevereiro, 2006

Pouco mais há a dizer





















pouco mais há a dizer. caminho largando
os últimos resíduos da memória. fragmentos de noite
escritos com o coração a pressentir as catástrofes
do mundo. a grande solidão é um lugar branco
povoado de mitos, de tristezas e de alegria. mas
estou quase sempre triste. por exemplo, no fundo
deste poço vi inclinar-se a sombra adolescente que
fui. água lunar, canaviais, luminosos escaravelhos.
este sol queimando a pele das plantas. caminho
pelos textos e reparo em tudo isto. o que começo
deixo inacabado, como deixarei a vida, tenho a
certeza, inacabada. o mundo pertenceu-me, a
memória revela-me essa herança, esse bem. hoje,
apenas sinto o vento reacender feridas, nada
possuo, nem sequer o sofrimento. outra memória
vai tomando forma, assusta-me. ainda quase nada
aconteceu e já envelheci tanto. um jogo de
estilhaços é tudo o que possuo, a memória que
vem ainda não tem a dor dentro dela. as
fotografias e os textos, teu rosto, poderiam
projectar-me para um futuro mais feliz, ou
contarem-me os desastres dos recomeçados
regressos. mas, quando mais tarde conseguir
reparar que a vida vibrou em mim, um instante,
terei a certeza de que nada daquilo me pertenceu.
nem mesmo a vida, nenhuma morte. na mesma
posição, reclinado sobre meu frágil corpo,
recomeço a escrever. estou de novo ocupado em
esquecer-me. a escrita é precária morada para o
vaguear do coração. resta-me a perturbação de ter
atravessado os dias, humildemente, sem
queixumes. anoitece ou amanhece, tanto faz.

Al Berto

24 fevereiro, 2006

Ofício Imperfeito
















Atormenta-me a certeza calma e clara
de que jamais concluirei um único poema.
Atormentam-me, mas não me afligem,
as estrelas infinitamente brilhantes
e a luz do sol exacto sobre os dias.
Flor ou pássaro são palavras que me agradam
mas não sei se dão sentido ao silêncio.
São-me gratas todas as formas e cores do amor,
mesmo quando coisa amada e amor possível
se confundem no objecto impossível do desejo.
Gosto das praias que se despem no Outono,
embora me incomode o vento quando não traz gaivotas.
Sinto prazer em imaginar labirintos (sobretudo de versos)
ou perder-me na encruzilhada dos sonhos.
Sei que tudo isto (uma nuvem azul, um sorriso)
fica aquém do poema, fica no limiar da palavra,
mas mesmo assim persisto no ofício de contemplar a esfinge.

Paulo Ramalho

23 fevereiro, 2006

Sem medo

















Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.

Clarice Lispector

22 fevereiro, 2006

Viagem

















Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga

21 fevereiro, 2006

Ícaro

















O sol dos Sonhos derreteu-lhe as asas.
E caiu lá do céu onde voava
Ao rés-do-chão da vida.
A um mar sem ondas onde navegava
A paz rasteira nunca desmentida...

Mas ainda dorida
No seio sedativo da planura,
A alma já lhe pede impenitente,
A graça urgente
De uma nova aventura.

Miguel Torga, Diário, XII

20 fevereiro, 2006

Conquista
















Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.
Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Miguel Torga

19 fevereiro, 2006

Fragmentos

















1
Poesia é amargura,
mel celeste que emana
de um favo invisível
que as almas fabricam.

2
Eu vou dormir;
se não me despertas,
deixarei a teu lado
meu coração frio.

3
Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.

4
Rumor.
Ainda que não fique nada mais que o rumor.
Aroma.
Ainda que não fique mais que aroma.
Mas arranca de mim
a recordação e a cor das velhas horas.

5
Agonia, agonia, sonho, fermento e sonho.
Este é o mundo, amigo, agonia, agonia.

6
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Por sob a lua gitana, as coisas estão mirando-a e ela não pode mirá-las.

7
Não me perguntem nada.
Eu vi que as coisas quando buscam seu curso encontram seu vazio.

8
Quero dormir o sono das maçãs,
afastar-me do tumulto dos cemitérios.


Frederico García Lorca

15 fevereiro, 2006
















E tudo se resumiu à evidência do pó.
Uma lenda, um ofício, uma teia de
apertadas mágoas que nunca mais
deixará passar a luz.
A tua luz, sol, lua ou juvenil chama dos
campos livres,
apagou-se violentamente.
Nos aquários da noite caiu uma estrela.
O mundo caiu sobre os teus ombros.

José Agostinho Baptista

13 fevereiro, 2006

















Para poder morrer
Guardo insultos e agulhas
Entre as sedas do luto.
Para poder morrer
Desarmo as armadilhas
Me estendo entre as paredes
Derruídas
Para poder morrer
Visto as cambraias
E apascento os olhos
Para novas vidas
Para poder morrer apetecida
Me cubro de promessas
Da memória.
Porque assim é preciso
Para que tu vivas.

Hilda Hirst

12 fevereiro, 2006

Amavisse

















Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo
brusco Inamovível, e te respiro inteiro
Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.

Hilda Hilst

11 fevereiro, 2006

último refúgio
















Poesia - amparo de ânsias e agonias,
urna do pranto amargo e solitário.
Poesia - contas mágicas de um rosário
de ardentes preces, pelas noites frias.

Acolhes, maternal, as litanias da alma
que enfrenta o sofrimento vário
e se agasalha no hiemal sudário,
deslembrada de risos e alegrias.

Mesmo que eu seja a última a venerar-te,
humilde ancila, fiel em procurar-te,
constante seguirei os teus caminhos,

Pois contigo, em estradas de mil flores,
descrevi minhas ilusões, cantei amores
sob o teu manto de veludo e arminhos.

Sylvia V. Câmara

10 fevereiro, 2006

saudade





















Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio tua virtude,
tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raíz exposta

Traz de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda em mim
os animais que atormentam o meu sonho.

Mia Couto

09 fevereiro, 2006

Ah, Perante





















Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade,
Perante este horrível ser que é haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
— Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
Tudo o que os homens dizem,
Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles,
Se empequena! Não, não se empequena... se transforma em outra coisa
— Numa só coisa tremenda e negra e impossível,
Urna coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino
—Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
Aquilo que subsiste através de todas as formas,
De todas as vidas, abstratas ou concretas,
Eternas ou contingentes,
Verdadeiras ou falsas!
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo,
Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa!

Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,
E é com minhas idéias que tremo, com a minha consciência de mim,
Com a substância essencial do meu ser abstrato
Que sufoco de incompreensível,
Que me esmago de ultratranscendente,
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!

Cárcere do Ser, não há libertação de ti?
Cárcere de pensar, não há libertação de ti?

Ah, não, nenhuma — nem morte, nem vida, nem Deus!
Nós, irmãos gêmeos do Destino em ambos existirmos,
Nós, irmãos gêmeos dos Deuses todos, de toda a espécie,
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra, S
ombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite.

Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte,
Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males,
Inconsciente o mistério de todas as coisas e de todos os gestos,
Por que não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte?
Ignoro-a? Mas que é que eu não ignoro?
A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo,
São mistérios menores que a Morte?
Como se tudo é o mesmo mistério?
E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada.
Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe!
Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais,
Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência,
Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência,
Porque é preciso existir para se criar tudo,
E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser,
E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.

Álvaro de Campos

08 fevereiro, 2006
















Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: - a luz do dia!-
Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
- Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água - música da terra,
Serias água pura e sempre calma!-
Mas de tudo que possas ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!

António Botto