31 maio, 2006

Das viagens





















viajo
no teu corpo
caminhos
nunca imaginados

delírios
de náufrago à deriva
em noite de temporal.

viajo em ti
sonhos de uma ternura
nunca sentida.

Ademir Antonio Bacca

30 maio, 2006




















Na grande confusão deste medo
deste não querer saber
na falta de coragem
ou na coragem de
me perder me afundar
perto de ti tão longe
tão nu
tão evidente
tão pobre como tu
oh diz-me quem sou eu
quem és tu?

29 maio, 2006










Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.

Nuno Júdice

28 maio, 2006
















Semelhante à imóvel transparência
à inesgotável face
à pedra larga onde o olhar repousa
Água sombra e a figura
azul quase um jardim por sob a sombra
a iminência viva aérea
de uma palavra suspensa na folhagem
Semelhante ao disperso ao ínfimo
chama-se agora aqui o sono da erva
a ligeireza livre
a nuvem sobre a página

A. Ramos Rosa

27 maio, 2006

Faz-me o favor...














Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.
Tu és melhor
- muito melhor!-
Do que tu.
Não digas nada.

Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Mário Cesariny

26 maio, 2006
















O que é preciso é gente
gente com dente

gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unhas e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Ana Hatherly

16 maio, 2006















Fácil escrever na inesperada leveza.
As mãos e as sombras numa folhagem única.
Portas acesas. Anéis ou astros.
As bocas seguem as alamedas sinuosas.

Multiplicam-se as luzes do teu vestido de ervas.
Uma cabeleira no flanco das colinas,
carícias deslumbradas, sorrisos perfumados,
linhas de um corpo, linhas de um rio frágil e
minúsculo,
corolas de veludo e barro, corolas de água.

Um gesto dissipa as letras, levanta o silêncio ágil.
Reflexos, raízes na água transparente,
monótonos caprichos de semelhanças leves.
Ao acaso libertam-se sombras mais profundas.
O olhar agora está ligado à terra.
Levanta-te entre as pedras com as pedras.

António Ramos Rosa

15 maio, 2006















Nada a fazer amor, eu sou do bando.
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:

Andorinha endemne ao sobrassalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

Natália Correia

08 maio, 2006





















Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

Manuel António Pina

06 maio, 2006

















A felicidade sentava-se todos os dias
no peitoril da janela.
Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas
faces humanas.
E, como menino que era,
achava um grande mistério no seu
próprio nome.

Jorge de Sena

05 maio, 2006

















Passou o vento, passou o dia,
passou a noite e a manhã,
passou o tempo, passou a gente,
passou cada hora de amanhã;

passou um canto esquecido
nos cantos de cada passo,
passou ao dizer que passo
sem se lembrar do compasso;

passou a vida como se nada
fosse,
só passou e foi-se embora,
passou à pressa, sem demora,
e passou tudo a quem ficou;

e se mais não passou
no fim de tudo ter passado,
foi porque algo se passou
no último passo que foi dado.

Nuno Júdice
Geometria Humana

04 maio, 2006
















Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta
ao trémulo vigor de todos os teus gestos invisíveis,
à canção que tu cantas e mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

Raul de Carvalho

03 maio, 2006

















Que bom ter o relógio adiantado!...
A gente assim, por saber
que tem sempre tempo a mais,
não se rala nem se apressa.
O meu sorriso de troça,
Amigos!,
quando vejo o meu relógio
com três quartos de hora a mais!
...Tic-tac... Tic-tac...
(Lá pensa ele
que é já o fim dos meus dias).
Tic-tac...
(Como eu rio, cá p'ra dentro,
de esta coisa divertida:
ele a julgar que é já o resto
e eu a saber que tenho sempre mais
três quartos de hora de vida).

Sebastião da Gama

02 maio, 2006















Que voz lunar insinua
o que não pode ter voz?

Que rosto entorna na noite
todo o azul da manhã?

Que beijo de oiro procura
uns lábios de brisa e água?

Que branca mão devagar
quebra os ramos do silêncio?

Eugénio de Andrade

01 maio, 2006

















Esquece-te de mim, Amor,
das delícias que vivemos
na penumbra daquela casa,
esquece-te.
Faz por esquecero momento em que chegámos,
assim como eu esqueço
que partiste,
mal chegámos,
para te esqueceres de mim,
esquecido já
de alguma vez
termos chegado.

António Mega Ferreira

30 abril, 2006
















Fácil escrever na inesperada leveza.
As mãos e as sombras numa folhagem única.
Portas acesas. Anéis ou astros.
As bocas seguem as alamedas sinuosas.
Multiplicam-se as luzes do teu vestido de ervas.

Uma cabeleira no flanco das colinas,
carícias deslumbradas, sorrisos perfumados,
linhas de um corpo, linhas de um rio frágil e
minúsculo,
corolas de veludo e barro, corolas de água.
Um gesto dissipa as letras, levanta o silêncio ágil.

Reflexos, raízes na água transparente,
monótonos caprichos de semelhanças leves.
Ao acaso libertam-se sombras mais profundas.
O olhar agora está ligado à terra.
Levanta-te entre as pedras com as pedras.

António Ramos Rosa

29 abril, 2006

Nuvens correndo num rio


















Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!

Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.

Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?

Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?

Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.

Natália Correia

28 abril, 2006

ofertado





















“Virás comigo”, disse, sem que ninguém soubesse
onde e como pulsava o meu coração doloroso,
e para mim não havia cravo nem barcarola,
nada a não ser uma ferida aberta pelo amor.

Repeti: vem comigo, como se estivesse a morrer,
E ninguém viu na minha boca a lua que sangrava,
Ninguém viu aquele sangue que crescia em silêncio.
Oh amor, esqueçamos a estrela com espinhos!

Por isso quando ouvi a tua voz repetir
“Virás comigo”, foi como se soltasses
dor, amor, a fúria do vinho encarcerado

que da sua adega submersa subisse
e outra vez na boca senti um sabor de chama,
de sangue e cravos, de pedra e queimadura.

P. Neruda

(Obrigada, Zeus)

27 abril, 2006

aqui perto...























Poema hoje trazido de um novo sítio,
designado Ponte Encantada,
onde Lady Traveller e Mr. Misan Thrope,
(anglicismos de Quem Viaja por superficíes espelhadas e labirinticas e de Quem tenta não ter da vida uma visão açucarada, confinado ao espaço restrito do monitor)
dialogalmente se propõem abolir as margens.


How often we must bear the challenges of life;
The endless roller coaster between happiness and sorrow;
The constant ups and downs of daily strife.
And always the question remains .... why?

Life is not an easy road for most;
It twists and turns with many forks in the road,
Although always, and inevitably, we are given a choice ...

Do we turn to the right ... or the left?
Do we take the high road ... or the low road?
Do we take the easy path ... or the difficult one?

Decisions are not easy for those struggling for direction ...
And sometimes the many choices and signs become overwhelming.

While standing at a crossroads in life,
The urge is to take the most comfortable path;
The road with least resistance ...
The shortest or most traveled route.

And yet, if we've been down that comfortable road before;
Have gleaned its lessons in life, and learned from our experiences;

Do we yet again follow the known?
Or does our destiny lie in another direction?

The fear of the road less traveled is tangible and all too real;
It manifests itself in many ways,
And tends to cloud the issues that might otherwise be clear.

It is in these times of confusion,
That we must seek peace and solitude;

Time to contemplate on our life,
Our experiences and our choices past;
Time to look back, and reflect on what we have learned
Without fear or confusion.

For only each of us knows our own personal thoughts;
Our unique past and personal history;
The experiences that brought us to the crossroads we now face.

We can always learn a small degree from others experiences,
And yet ... no one person can walk in our shoes,
Others know not, the trials and tribulations faced in private ...

For each is individual ... unique ... and personal.

And that is why ... while standing at a crossroads,
Only "we" can formulate the decision for ourselves;
The true direction that lies within;
The choices we must deliberate on with clarity and wisdom.

For it is only through personal reflection,
That we can now choose our destiny;
... Our next adventure;
... And the future we will embrace.

Kit McCallum

25 abril, 2006

O amor


















Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.

A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.

A inudar-te de facas,
de saliva esperma lume.

Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.

A marcar sobre os teus flancos
itinerários de espuma.

Assim é o amor:
mortal e navegável.

Eugénio de Andrade