06 maio, 2006

















A felicidade sentava-se todos os dias
no peitoril da janela.
Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas
faces humanas.
E, como menino que era,
achava um grande mistério no seu
próprio nome.

Jorge de Sena

05 maio, 2006

















Passou o vento, passou o dia,
passou a noite e a manhã,
passou o tempo, passou a gente,
passou cada hora de amanhã;

passou um canto esquecido
nos cantos de cada passo,
passou ao dizer que passo
sem se lembrar do compasso;

passou a vida como se nada
fosse,
só passou e foi-se embora,
passou à pressa, sem demora,
e passou tudo a quem ficou;

e se mais não passou
no fim de tudo ter passado,
foi porque algo se passou
no último passo que foi dado.

Nuno Júdice
Geometria Humana

04 maio, 2006
















Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta
ao trémulo vigor de todos os teus gestos invisíveis,
à canção que tu cantas e mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

Raul de Carvalho

03 maio, 2006

















Que bom ter o relógio adiantado!...
A gente assim, por saber
que tem sempre tempo a mais,
não se rala nem se apressa.
O meu sorriso de troça,
Amigos!,
quando vejo o meu relógio
com três quartos de hora a mais!
...Tic-tac... Tic-tac...
(Lá pensa ele
que é já o fim dos meus dias).
Tic-tac...
(Como eu rio, cá p'ra dentro,
de esta coisa divertida:
ele a julgar que é já o resto
e eu a saber que tenho sempre mais
três quartos de hora de vida).

Sebastião da Gama

02 maio, 2006















Que voz lunar insinua
o que não pode ter voz?

Que rosto entorna na noite
todo o azul da manhã?

Que beijo de oiro procura
uns lábios de brisa e água?

Que branca mão devagar
quebra os ramos do silêncio?

Eugénio de Andrade

01 maio, 2006

















Esquece-te de mim, Amor,
das delícias que vivemos
na penumbra daquela casa,
esquece-te.
Faz por esquecero momento em que chegámos,
assim como eu esqueço
que partiste,
mal chegámos,
para te esqueceres de mim,
esquecido já
de alguma vez
termos chegado.

António Mega Ferreira

30 abril, 2006
















Fácil escrever na inesperada leveza.
As mãos e as sombras numa folhagem única.
Portas acesas. Anéis ou astros.
As bocas seguem as alamedas sinuosas.
Multiplicam-se as luzes do teu vestido de ervas.

Uma cabeleira no flanco das colinas,
carícias deslumbradas, sorrisos perfumados,
linhas de um corpo, linhas de um rio frágil e
minúsculo,
corolas de veludo e barro, corolas de água.
Um gesto dissipa as letras, levanta o silêncio ágil.

Reflexos, raízes na água transparente,
monótonos caprichos de semelhanças leves.
Ao acaso libertam-se sombras mais profundas.
O olhar agora está ligado à terra.
Levanta-te entre as pedras com as pedras.

António Ramos Rosa

29 abril, 2006

Nuvens correndo num rio


















Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!

Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.

Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?

Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?

Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.

Natália Correia

28 abril, 2006

ofertado





















“Virás comigo”, disse, sem que ninguém soubesse
onde e como pulsava o meu coração doloroso,
e para mim não havia cravo nem barcarola,
nada a não ser uma ferida aberta pelo amor.

Repeti: vem comigo, como se estivesse a morrer,
E ninguém viu na minha boca a lua que sangrava,
Ninguém viu aquele sangue que crescia em silêncio.
Oh amor, esqueçamos a estrela com espinhos!

Por isso quando ouvi a tua voz repetir
“Virás comigo”, foi como se soltasses
dor, amor, a fúria do vinho encarcerado

que da sua adega submersa subisse
e outra vez na boca senti um sabor de chama,
de sangue e cravos, de pedra e queimadura.

P. Neruda

(Obrigada, Zeus)

27 abril, 2006

aqui perto...























Poema hoje trazido de um novo sítio,
designado Ponte Encantada,
onde Lady Traveller e Mr. Misan Thrope,
(anglicismos de Quem Viaja por superficíes espelhadas e labirinticas e de Quem tenta não ter da vida uma visão açucarada, confinado ao espaço restrito do monitor)
dialogalmente se propõem abolir as margens.


How often we must bear the challenges of life;
The endless roller coaster between happiness and sorrow;
The constant ups and downs of daily strife.
And always the question remains .... why?

Life is not an easy road for most;
It twists and turns with many forks in the road,
Although always, and inevitably, we are given a choice ...

Do we turn to the right ... or the left?
Do we take the high road ... or the low road?
Do we take the easy path ... or the difficult one?

Decisions are not easy for those struggling for direction ...
And sometimes the many choices and signs become overwhelming.

While standing at a crossroads in life,
The urge is to take the most comfortable path;
The road with least resistance ...
The shortest or most traveled route.

And yet, if we've been down that comfortable road before;
Have gleaned its lessons in life, and learned from our experiences;

Do we yet again follow the known?
Or does our destiny lie in another direction?

The fear of the road less traveled is tangible and all too real;
It manifests itself in many ways,
And tends to cloud the issues that might otherwise be clear.

It is in these times of confusion,
That we must seek peace and solitude;

Time to contemplate on our life,
Our experiences and our choices past;
Time to look back, and reflect on what we have learned
Without fear or confusion.

For only each of us knows our own personal thoughts;
Our unique past and personal history;
The experiences that brought us to the crossroads we now face.

We can always learn a small degree from others experiences,
And yet ... no one person can walk in our shoes,
Others know not, the trials and tribulations faced in private ...

For each is individual ... unique ... and personal.

And that is why ... while standing at a crossroads,
Only "we" can formulate the decision for ourselves;
The true direction that lies within;
The choices we must deliberate on with clarity and wisdom.

For it is only through personal reflection,
That we can now choose our destiny;
... Our next adventure;
... And the future we will embrace.

Kit McCallum

25 abril, 2006

O amor


















Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.

A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.

A inudar-te de facas,
de saliva esperma lume.

Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.

A marcar sobre os teus flancos
itinerários de espuma.

Assim é o amor:
mortal e navegável.

Eugénio de Andrade

24 abril, 2006

Frente a frente





















Nada podeis contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco.

Eugénio de Andrade

23 abril, 2006

Soneto






















Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.

Ary dos Santos

22 abril, 2006

Mi Vida Entera














Aqui otra vez, los labios memorables, unico y
semejante a vosotros.
Soy esa torpe intensidad que es un alma.
He persistido en la aproximacion de la dicha y
en la privanza del pesar.
He atravesado el mar.
He conocido muchas tierras; he visto una mujer
y dos o tres hombres.
He querido a una nina altiva y blanca y de una
hispanica quietud.
He visto un arrabal infinito donde se cumple una
insaciada inmortalidad de ponientes.
He paladeado numerosas palabras.
Creo profundamente que eso es todo y que ni veré
ni ejecutaré cosas nuevas.
Creo que mis jornadas y mis noches se igualan en
pobreza y en riqueza a las de Dios y a las
de todos los hombres.

J.L.Borges

21 abril, 2006

Coleccionador de quimeras





















Quando as minhas angústias
começam a morder-me
ponho-lhes a trela
saio à rua a passea-las
e deixo-as ladrar
ao tédio transeunte.
Depois ponho-lhes asas
e deixo-as voar
como pássaros
em busca de primaveras
imprevisíveis.

António Tomé

Antigamente era
















Antigamente era o eu-proscrito
Antigamente era a pele escura-noite do mundo
Antigamente era o canto rindo lamentos
Antigamente era o espírito simples e bom

Outrora tudo era tristeza
Antigamente era tudo sonho de criança

A pele o espírito o canto o choro
eram como a papaia refrescante
para aquele viajante
cujo nome vem nos livros para meninos

Mas dei um passo
ergui os olhos e soltei um grito
que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo
Harlem
Pekim
Barcelona
Paris
Nas florestas escondidas do Novo Mundo
E a pele
o espírito
o canto
o choro
brilham como gumes prateados
Crescem
belos e irresistíveis
como o mais belo sol do mais belo dia da Vida.

Agostinho Neto

13 abril, 2006

















Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?


Drumond de Andrade

Eu diria dos apátridas que somos








Eu diria dos apátridas que somos
daquela pátria que nos sobra.
Diria daqueles que por amá-la
proscritos ficaram
proscritos morreram.
Diria do exorcismo de um povo
na beira-mar da aventura,
do medo que em nós germina,
da labareda do sonho,
do entardecer da agonia.
Diria da mordaça,
dos estropiados,
das flores precocemente emurchecidas
Diria também dos vagabundos
que nos calcorrearam
por dentro.
Diria ainda da História e da guerra
ali ao lado.
Náufragos irremediáveis dos mares da China
a que não fomos

Eduardo Pitta, Poesia Escolhida

09 abril, 2006

















Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

Sophia M. B. Andresen

07 abril, 2006

Sou um evadido




















Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Fernando Pessoa