08 novembro, 2005

Meaningful Love





















What the bad news was
became apparent too late
for us to do anything good about it.
I was offered no urgent dreaming,
didn't need a name or anything.
Everything was taken care of.
In the medium-size city of my awareness
voles are building colossi.
The blue room is over there.
He put out no feelers.
The day was all as one to him.
Some days he never leaves his room
and those are the best days,
by far.
There were morose gardens farther down the slope,
anthills that looked like they belonged there.
The sausages were undercooked,
the wine too cold, the bread molten.
Who said to bring sweaters?
The climate's not that dependable.
The Atlantic crawled slowly to the left
pinning a message on the unbound golden hair of sleeping maidens,
a ruse for next time,
where fire and water are rampant in the streets,
the gate closed—no visitors today
or any evident heartbeat.
I got rid of the book of fairy tales,
pawned my old car, bought a ticket to the funhouse,
found myself back here at six o'clock,
pondering "possible side effects."
There was no harm in loving then,
no certain good either. But love was loving servants
or bosses. No straight road issuing from it.
Leaves around the door are penciled losses.
Twenty years to fix it.
Asters bloom one way or another.

John Ashbery
From Where Shall I Wander: New Poems.

07 novembro, 2005

Uma vez que já tudo se perdeu





















Que o medo não te tolha a tua mão
Nenhuma ocasião vale o temor
Ergue a cabeça dignamente irmão
Falo-te em nome seja de quem for

No princípio de tudo o coração
Como o fogo alastrava em redor
Uma nuvem qualquer toldou então
Céus de canção promessa e amor

Mas tudo é apenas o que é
levanta-te do chão põe-te de pé
Lembro-te apenas o que te esqueceu

Não temas porque tudo recomeça
Nada se perde por mais que aconteça
Uma vez que já tudo se perdeu

Ruy Belo

06 novembro, 2005

My Letters! all dead paper. . .




















(Sonnet XXVIII)

My letters! all dead paper, mute and white!
And yet they seem alive and quivering
Against my tremulous hands which loose the string
And let them drop down on my knee tonight.
This said—he wished to have me in his sight
Once, as a friend: this fixed a day in spring
To come and touch my hand. . . a simple thing,
Yes I wept for it— this . . . the paper's light. . .
Said, Dear, I love thee; and I sank and quailed
As if God's future thundered on my past.
This said, I am thine—and so its ink has paled
With lying at my heart that beat too fast.
And this . . . 0 Love, thy words have ill availed
If, what this said, I dared repeat at last!

Elizabeth Barret Browning

05 novembro, 2005

as sem razões do amor














Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
nem se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade

04 novembro, 2005

Design
















I found a dimpled spider, fat and white,
On a white heal-all, holding up a moth
Like a white piece of rigid satin cloth-
Assorted characters of death and blight
Mixed ready to begin the morning right,
Like the ingredients of a witches' broth-
A snow-drop spider, a flower like a froth,
And dead wings carried like a paper kite.
What had that flower to do with being white,
The wayside blue and innocent heal-all?
What brought the kindred spider to that height,
Then steered the white moth thither in the night?
What but design of darkness to appall?-
If design govern in a thing so small.

Robert Frost

02 novembro, 2005

Auto-retrato















Para onde quer que vá
já lá estive
o que quer que faça
não posso decidir
quem quer que eu ame
é uma parte
por muito que morra
fico com vida

Eva Christina Zeller
Sigo a Água

01 novembro, 2005

Colhendo amoras














Ninguém no caminho, e nada, nada a não ser amoras,
amoras dos dois lados, embora mais à direita,
uma álea de amoras, descendo em curvas fechadas, e um
mar
algures, lá ao longe, arfando. Amoras
tão grandes como a cabeça do meu polegar, e mudas como
olhos
negros nas sebes, repletas
de um suco azul-vermelho. Este desperdiça-se nos meus
dedos.
Não pedira tal comunhão de sangue; devem amar-me.
Comprimem-se numa garrafa de leite, de encontro aos seus
lados.
Sobre mim passam, com a sua cacofonia, os corvos em
bandos negros,
pedaços de papel queimado oscilando num céu ventoso.
A sua voz é a única que está a protestar, a protestar.
Julgo que o mar não vai mesmo aparecer.
Os verdes e altos prados brilham como iluminados por
dentro.
Chego a um arbusto de bagas tão maduras: é um arbusto
de moscas,
suspendendo os seus abdómens azuis esverdeados e os
vidrilhos alados de um biombo chinês.
O festim de mel das bagas surpreendeu-as; julgam-se no
paraíso.Para além de uma curva, as bagas e os arbustos acabam.
A única coisa que vem a seguir é o mar.
De entre duas colinas sopra contra mim um vento súbito,
sacudindo como fantasmas a sua roupa branca contra o
meu rosto.
Estas colinas são demasiado verdes e suaves para terem
saboreado o sal.
Sigo, entre elas, a vereda aberta pelas ovelhas. Uma última
curva leva-me
até à face norte das colinas, e a face é urna rocha alaranjada
que olha para nada, nada a não ser uma grande extensão
de luzes brancas e cor de estanho e um ruído como o de
um ourives
batendo sempre um metal rebelde.

Sylvia Plath
Pela Água
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães